Conjuntura e Clínica

23/05/2011 at 16:35 1 comentário

Rubens Bedrikow

A madrugada desta última sexta-feira transcorreu de forma tranquila no Pronto Socorro Anchieta. O plantão encaminhava-se para seu término enquanto eu atendia aqueles que esperam o alvorecer para buscar ajuda. A greve do funcionalismo público, ainda que moderada, fazia-nos chegar usuários que, em vão, tentaram consulta em alguma das unidades básicas paradas, na véspera.

 Moral e eticamente, não é fácil para os profissionais da saúde – pelo menos alguns – furtar-se a aliviar o sofrimento daqueles que compõem seu objeto de atenção. Mais difícil, porém, a situação dos doentes que precisam lidar com a frustração do não e ainda dispor de muita paciência nas salas de espera das urgências. O empregador, neste caso a Prefeitura Municipal de Campinas, elevara sua proposta inicial de reajuste de 4,22% para 7,33%. Muitos satisfizeram-se e não viam com bons olhos mais uma quebra de braço desgastante como experimentaram no passado. No entanto a decisão da assembleia foi pela manutenção do movimento, insistindo nos 15%. A adesão não era maciça e parecia-me que muitos, mais do que por salários maiores, protestavam contra seus processos de trabalho, seus chefes, a ambiência, entre outros motivos. Desconfio que naquelas unidades de saúde onde, nos últimos meses, profissionais exoneraram-se, transferiram-se ou afastaram-se, onde reuniões tensas, conversas difíceis, tons elevados fizeram parte do cotidiano, a greve fez mais sentido.

 Denúncias de corrupção envolvendo a primeira dama da cidade, alguns secretários municipais e empresários culminaram em prisões, apreensão de documentos, computadores e vultosas quantias de dinheiro nessa mesma madrugada. Tudo gravado, filmado e exibido pelos meios de comunicação. As pessoas se telefonando, completando a informação do outro, compartilhando as análises dos fatos, atentos aos noticiários das rádios e emissoras de televisão. Indignação dos munícipes com a corrupção, desvio de verba, improbidade na administração. Isso contribuiu para engrossar as manifestações, as passeatas, os gritos de ordem.

 Também nesse dia, iniciava-se a IX Conferência Municipal de Saúde. Gestores, trabalhadores e usuários reunidos para pensar e traçar o futuro da saúde no município. A delicada situação política e a incerteza da governança certamente perpassariam os encontros do evento. Numa demonstração de maturidade e responsabilidade, os organizadores, delegados e convidados tocaram a Conferência com competência e sabedoria.  

De pé, para a execução do hino nacional, a plateia fixava os olhos no vídeo que acompanhava a música símbolo da nossa nação. Entre diferentes vistas, monumentos e obras arquitetônicas de Campinas, havia o retrato de uma senhora idosa, serena, sossegada. Por ocasião daquela foto, tinha ela 99 anos e, ao que parece, era aquele seu primeiro retrato. Seu olhar súplice, era direto, humilde, profundo. Qual seria seu desejo, seu pedido? Talvez, se gestores, grevistas, delegados, acadêmicos pudessem fitar mais calmamente esse retrato… Acho que aquela senhora centenária sabe das coisas: a realização, a satisfação está no encontro, quando os olhos pacatos se cruzam, se entrequerem. Esta tecnologia levíssima desloca a relação entre o profissional de saúde e o paciente a um patamar mais elevado, onde os anseios são de uma ordem distinta daquela que pode ser resolvida com as passeatas, greves ou prisões.

 De volta ao assunto do plantão, naquela madrugada, devo confessar que, não obstante as dificuldades de trabalhar num sistema sub-financiado, até certo ponto desacreditado, quase em crise, foi ali que me senti realizado, feliz, orgulhoso de conseguir serenar o sofrimento de uma pessoa com falta de ar – segundo ele, devido a bronquite. Numa sala simples, pintura já desgastada, porém limpa e silenciosa, pude colocar em prática aquilo que aprendi com a medicina. Perguntei sobre seus sintomas e descobri que apresentava cansaço aos pequenos esforços. Constatei estertores crepitantes nas bases dos pulmões. Usei o raciocínio clínico para fazer o diagnóstico de insuficiência cardíaca congestiva (ICC). Expliquei-lhe minhas conclusões e sugeri uma radiografia de tórax uma vez que na maioria dos casos de ICC em hipertensos (esse era seu caso) encontramos aumento do coração. Propus que tomasse ali mesmo captopril e furosemida. A radiografia confirmou a cardiomegalia e revelou ainda linhas B de Kerley – linhas densas, curtas e transversais na periferia dos pulmões e que representam septos interlobulares espessados por líquido de edema. Isso praticamente confirmava a suspeita diagnóstica. Expliquei-lhe os achados, fizemos uma carta para sua médica assistente e entreguei-lhe uma receita com os medicamentos acima, além de carvedilol. Nesse momento os medicamentos já produziam o efeito esperado e o paciente encontrava-se melhor, nitidamente satisfeito. Eu também estava desfrutava de sentimento semelhante, confundindo a sensação de dever cumprido e o prazer interno que a prática médica pode gerar.

 Nesse encontro, rolou transferências, confiança, vínculo, propedêutica, rede etc. Uma clínica simples, porém potente, capaz de agradar aos dois sujeitos que se encontraram durante quinze ou vinte minutos. Essa sensação de bem estar, de prazer ao exercer a Clínica está em que ordem de entendimento? Que os formuladores das diretrizes e políticas de saúde – gestores, trabalhadores e usuários – dediquem um olhar atento a essa necessidade das pessoas e facilitem os encontros de qualidade no exercício da Clínica, valorizando os sentidos e sentimentos. Talvez seja essa a razão principal da medicina.

 Campinas, 22 de maio de 2001.

Rubens Bedrikow – Médico Clínico e Sanitarista do SUS Campinas (rubedrikow@yahoo.com.br)

 

 

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Agora é a hora! IX Conferência Municipal de Saúde A Vida Continua… pra mim, pra você, pra todos

1 Comentário Add your own

  • 1. Fábio BH  |  02/06/2011 às 01:33

    Bela reflexão do camarada Rubens.
    Fiquei estimulado em fazer algum diálogo imaginando contribuir para a reflexão do papel da medicina e as suas razões. O sentimento de coletivo também me chama para este lugar de refletir sobre outras ordens e a compreensão da luta dos trabalhadores, dos gestores e dos usuários. Fiquei então imaginando quanto de formas radicais poderíamos incorporar, além das corporações, na militância do SUS, apoiando a qualificação da Clínica, seus encontros radicais de transformar nossos atos em saúde numa dimensão política.
    Uma dimensão política da Clínica poderia ser a razão da busca de enfrentamentos necessários para se produzir a autonomia aos usuários, defendendo seus interesses e os aspectos da organização do trabalho de cada ação em saúde, onde o compartilhando da tradução técnico-político de suas necessidades se transformassem em novas formas de relação com estes e o seus respectivos serviços de saúde. Poderia a dimensão política da Clínica, buscar novos padrões de qualidade nas relações mais cotidianas, ultrapassando os sentimentos da escuta dos sofrimentos (o que já é muito), reestabelecendo a capacidade de novas intervenções para o Sistema de Saúde. Uma nova dimensão da Clínica poderia ser a compreensão política de que a retirada do risco de morte e dos sofrimentos muitas vezes colocam os profissionais de saúde numa relação poderosa e de sobre-humano, numa relação situacional em que a fragilidade momentânea do usuário é muito presente. Poderíamos não perder a possibilidade de reconhecer a energia transformadora de luta destes usuários, na capacidade de reinvidicar outra relação de que não seja a suposta relação vitimada a que estamos acostumados a dar.
    Poderíamos refletir muitas coisas sobre a dimensão Política da Clínica repensando formas de intervir e de ser na relação de nos mesmos, gestores e trabalhadores.

    Responder

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